Conflito s. m. 1. Luta armada. 2. Choque, colisão (de idéias, jurisdições, direito, etc).

Sábado, Junho 27, 2009

conversa difícil. jogo de sinuca. bola oito na caçapa. 38 na cabeça.

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Sobre nada disso eu quis escrever.

Aqui, no vazio, o tempo não passa.

Eu corri devagar pelas ruas do centro de São Paulo na noite de chuva, ontem. Estava acompanhada por um homem do qual não posso recordar o nome. Éramos dois. Dois e as gotas de chuva.

Era ele, sem-nome, um velho amigo, uma nova sombra. Fantasma que voltara e trazia consigo sorriso, cerveja, poucas certezas. Não me tocava, podia simplesmente correr pela chuva. Contou-me o que sentia, contou-me o que vivera. No fundo de seus olhos um vulto insistia.

Ao pararmos, cruzamento perigoso sem carros, ônibus, outras pessoas, os olhos dele estavam. Cão que eu vira outro dia, caminho do supermercado, olhos vidrados, olhos voltados para a frente, para o tempo que já não passava.

O amigo parou a minha frente e segurou minha mão. Olhava por mim, cada um dos globos oculares transpassando a vida, a minha vida. Olhos vidrados. Eu estava a sua frente, as palmas dos pés longe do chão, as pernas grudadas ao passeio frio, assim como os braços, a cabeça sem ideias, as mãos e seus dedos voltados ao céu. Era noite chuvosa, era a paulicéia.

O tempo aqui, no vazio, não passa.

Brigadeiro. Mistura mágica de chocolate, leite condensado e manteiga. Apura-se. O ponto exato é a massa soltando do fundo da panela.

Brigadeiro. Serve para fazer o dia mais infância, mais sorriso. Serve para suprir o que a carne - ou a alma - não tem.

Eu divaguei toda a noite sobre o prato desse doce. Levei colheres à boca, não comi. Lambi pequenamente, porque a dor e a raiva que se acumulavam nas fibras deste coração precisavam de cuidado extremo, açucarado.

O prato vazio, cheira agora a alecrim. Pouco compreendi como a transmutação do chocolate naquela erva se deu. Soube apenas que a alma era agora mais leve, pairava vagarosa porque tinha sossego.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Nicolau e as cenouras.

Tenho três meses e tão pouco conheço desta vida. Lembro dos primeiros dias com outros iguais a mim e caixa de papelão tida como casa. Logo, afastado de mamãe, ganhei novo lar, uma dona e uma "madrinha", casinha fofa, brinquedos.

A casa tinha chão liso, um sofá zebrado. E eu corria, corria, corria de uma sacada a outra arrastando tudo aquilo que pudesse. Com o tempo aprendi que o que as meninas levavam à boca poderia ser saboroso também para mim. Eu, que na minha tenra infância apenas podia provar de ração para filhotes e água fresca, poderia agora sentir o prazer da boa mesa.

Um dia ganhei meu primeiro bocado. Suco fresco de maracujá. Azedo e tranquilizador, me fez dormir dopado como um anjo. Logo, outras frutas vieram: mamão, maçã, pêra, uva, banana. Depois, cenouras. Cada coisa com seu gosto e seu nome, como era de se esperar. Eu, nada bobo, me divertia com os bocados e brincava com os generosos e divertidos nacos.

Porém, numa noite, um moço tocou a campainha e eu, no meu canto, descobri que alguns homens poderiam trazer guloseimas para a felicidade de minhas meninas. O cheiro que saída daquelas caixas e potinhos era sempre quente e salgado. Esperto, achei que aquelas comidas que nunca havia provado, mas que agora podia cheirar seguiam a lógica de minhas conhecidas frutas e da amada cenoura. Eu podia ver: franguinhos, batatinhas, hamburgueres, macarrão... Nhac! Ao morder a nuvem da imaginação, o formato de cada sabor se dissipava na língua em um mesmo adocicado, frio, molhado paladar. Cenoura.

São dois anos. Dois. Um reencontro. São duas pessoas, duas bocas. Duas, não quatro. Dois corações e mentes. Quatro, não dois. Pulmões mais ou menos estragados, línguas mais ou menos ácidas, mãos mais ou menos fortes. Dois peitos, os dela. Dois sexos, de ambos.

Não era matemática como ela gostaria. Era sentimento que não existia e foi sendo cultivado, cultivado. Semente plantada com força no primeiro dia. Regada e revolvida no segundo tempo da terra fofa.

Agora já não podia esquivar-se, ao menos ela, da responsabilidade que sua irresponsabilidade criara. Era amor - ou algo parecido - o que sentia dia a dia. Estava em paz com o espaço, em guerra com o tempo. Porque, na matemática nunca fora aluna exemplar e da adição de um mais zero, teimava e desejava que o resultado fosse dois. E da adição de um mais um, talvez quisesse que o resultado fosse um.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

7h58. Acorda. Os olhos ainda baços de álcool, tabaco e amor, olha em volta e tenta reconhecer o espaço. Os móveis são escuros, o quarto claro. Está sozinho. Ela o deixou dormir e ele lembra deste instante quando os últimos beijos foram dados e o rosto agora só fazia sentido na memória, pois perdiam-se o traço marcado e os olhos jabuticaba tão físicos há pouco.

Ele levanta, ao lado da cama alguns sapatos, masculinos como os dele. De repente, dá-se conta que ali estavam muitas coisas que talvez não devessem continuar juntas com as dela. Gravatas, pesos de papel, cadernos de anotação. Não pode mais sentir-se presente naqueles cômodos modestos e cheios de um carinho noturno.

Olha em volta, no quarto, sala e banheiro. Não toca em sequer uma peça, mas presta atenção em tudo que a vista, por si só, pode alcançar. Doem-lhe os olhos, mesmo que egoísticamente, mesmo que sem propósito. Doem-lhe. Doe-lhe pensar que invadia, doe-lhe tanto resquício daquele amor.
Arruma os sapatos pretos que haviam estado por toda a madrugada no canto do sofá, coloca as calças e ajeita a gravata que trazia. Vai até o banheiro e lava o rosto marcado pelos travesseiros. Caminha e gira a chave na fechadura. Dali para a frente, é incógnita.

Terça-feira, Abril 21, 2009

A alegria do dia veio faceira e mutável. Era afeita às químicas que devendam imagens. No parco espaço cabia os olhos puxados e sorridentes, cabia também o coração puro de Ogava.

Não sei o que fazer com meus rompantes, assim como não posso resolver o problema da roupa suja que se acumula.
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Compulsiva.
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Me enterrei. A terra era fofa, porém a superfície era tomada por crateras secas. Terra rachada de sertão. Afoguei-me naquele mar de grãos e não mais pude voltar a superfície e respirar com cuidado. Eu, mais uma vez, apostei na leveza, mas a verdade é que meu coração de chumbo não suporta tanto vazio.

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

O livro na estante. Não era.
O livro sobre a cama. Também, não.
O sorriso continua o mesmo, assim como o tom da pele, da voz.
Os cabelos tem agora mais fios brancos... as unhas continuam roídas.
Mudamos, como disse ele. Mas algumas coisas, algures, nunca morrem.

Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

Manhã de segunda, o dia nasceu como eu.
Claro, frio.

Mãe tinha razão quando dizia: mãos quentes, coração frio. Hoje, frio cortante, gelo sobre o passeio, não coloquei as luvas. As mãos queimavam.